O que o passado pode nos contar: Portas falsas ou “Portas para o Ka” - Egito Antigo

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O que o passado pode nos contar: Portas falsas ou “Portas para o Ka”

Convidei a Arqueóloga Márcia Jamille, especialista em Antigo Egito, escritora, administradora do excelente site Arqueologia Egípcia e da página no facebook Márcia Jamille - Arqueologia Egípcia para escrever um artigo sobre um tema a sua escolha que foi prontamente aceito e que resultou nesse magnífico texto sobre as Portas falsas para o deleite dos amantes de temas relacionados ao Egito Antigo.


Por Márcia Jamille N. Costa (bacharela e mestra em Arqueologia)*
Recentemente o Carlos André Coimbra de Almeida, criador do EgitoAntigo.net fez um convite para que eu escrevesse um texto para o site. Prontamente aceitei e sinto-me honrada pela solicitação. Como tema, escolhi um dos assuntos que mais me fascinava na minha adolescência: as Portas Falsas.

Por séculos as sociedades egípcias construíram magníficos túmulos para os seus governantes e cidadãos mais celebres e dentro deles colocaram tudo o que fosse necessário para tais indivíduos na outra vida. Como a religião egípcia consistia em uma vasta gama de práticas religiosas, por vezes torna-se abstruso entendê-la como um todo e ainda mais difícil compreender discursos mais específicos, mesmo entre os artefatos de cunho funerário, tão populares em sítios arqueológicos. Contudo, alguns destes objetos, a exemplo das portas falsas, tem a sua finalidade clara para nós, embora o seu uso seja mais complexo, não somente religiosamente, mas socialmente, servindo, dentre tantos fins, como itens para apontar a hierarquia.

O instauro da porta falsa tinha relação com a crença espiritual egípcia e a ideia da existência de vários fragmentos que constituíam uma pessoa. Por exemplo, entre os espíritas existe a convicção de uma vida após a morte onde o corpo do individuo entra em falência, mas ainda resta uma alma. Já entre as sociedades egípcias acreditava-se que o humano era constituído por algumas partes espirituais e ao morrer estas frações exerceriam funções essenciais para manter a existência do ser. Dentre estes vários pedaços estava o Ka, porção para a qual era reservada as oferendas na tumba e era justamente o Ka que usualmente estava representado nas portas falsas, especialmente no Antigo Reino, simulando o falecido (BRANCAGLION Jr., 2001). Um exemplo de porta falsa com uma caracterização do Ka é avindo da tumba de Mereruka, um funcionário que viveu durante o Antigo Reino. Sua mastaba, em Saqqara, foi descoberta em 1892 por Jacques De Morgan e mede 40 m de comprimento por 24 m de largura, sendo constituída por 32 aposentos.
A importância destas estruturas estava de fato na sua função de ser a ligação entre o mundo dos mortos e dos vivos (BARD,2007; DODSON, 2010) e o seu uso se estendeu até para pessoas de fora da elite que embora não usufruíssem de túmulos grandes ainda assim faziam uso de tais objetos (ASSMANN, 2005 apud TAYLOR, 2010). Era usualmente nelas que as hetep di nesu, ou seja, as fórmulas de oferendas, eram esculpidas, esperando assim que o sustento do falecido fosse garantido (BARD, 2007). Estas entradas não serviam somente aos humanos, os deuses também faziam uso delas, a exemplo da porta falsa encontrada no templo osiriaco de Seti I (Novo Império), em Abidos (SHUBERT, 1999).

Usualmente estes objetos eram constituídos por uma figura quadrangular feita através da técnica de relevo ou uma pintura, utilizando como base uma parede, pedra ou madeira e que tinha a sua frente uma mesa para oferendas (BRANCAGLION Jr., 2001). Algumas tendem a apresentar aspectos que lembram funções de uma entrada derradeira, como a porta falsa de Ika, um funcionário que viveu durante a 5ª Dinastia (Antigo Reino), cujo cilindro no espaço superior poderia indicar uma esteira enrolada, que no caso de uma passagem verdadeira seria usada para fechar a mesma.
Estes itens poderiam ser encontrados na câmara de oferendas ou no pátio do túmulo, mas jamais na câmara sepulcral, uma vez que a ideia da sua concepção era criar uma ligação entre o morto dono do local e os vivos. As que atualmente vemos no lado externo da tumba em verdade encontravam-se no pátio.
Comentários:
Questões ilegais:

Artefatos arqueológicos egípcios têm chamado a atenção do mundo desde a invasão napoleônica em 1798, quando a história egípcia começou a virar alvo de interesse da elite europeia, interessada em adquirir parte desta antiguidade. Dado ao fato de vários itens terem sido retirados do país indiscriminadamente o Vice-Rei Mohamed Ali (1769-1849) assinou uma portaria em 1835 que proibia a posse ilegal de artefatos, embora ele mesmo presenteasse diplomatas ou monarcas europeus com tais objetos.

Foi somente em 14 de Novembro de 1970 que finalmente uma medida mais efetiva foi tomada através da Convenção da UNESCO para proibir a importação, exportação e propriedade ilícita de artefatos arqueológicos, o que restringiu de fato o mercado. Contudo, isto não impede a ação de traficantes de peças egípcias, muito menos dos compradores e um dos itens favoritos do tráfico são as portas falsas. Em um caso famoso da década de 1990 uma gangue internacional mascarava estes objetos, fazendo-os parecerem suvenires feitos em lojas para turistas, o que facilitava a sua passagem pela alfandega (RIGGS, 2010). Infelizmente ainda hoje este é um problema corrente, o que só faz prejudicar as pesquisas em Arqueologia.    

Mais exemplos de portas falsas:
Referências:

BARD, Kathryn. An Introduction to the Archaeology of Ancient Egypt. Oxford: Blackwell, 2007.

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

BREGA, Isabella; CRESCIMBENE, Simonetta. Um passeio pelos lugares e pela história do Egito (Tradução de Michel Teixeira, Maria Júlia Braga, Joana Bergman, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007.

DODSON, Aidan. Mortuary Architecture and Decorative Sytems. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

RIGGS, Christina. Ancient Egypt in the Museum. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

SHUBERT, STEVEN BLAKE. Abydos, Osiris temple of Seti I. In: BARD, Kathryn. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. London: Routledge, 1999.

TALLET, Pierre. A culinária no Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Júlia Braga, Joana Bergman). Barcelona: Folio, 2006.

TAYLOR, John. Changes in the Afterlife. In: WENDRICH, Willeke (Ed). Blackwell Studies in Global Archaeology: Egyptian Archaeology. New Jersey: Wiley-Blackwell, 2010.

TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998.

* Márcia Jamille é Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do site Arqueologia Egípcia e página no Facebook Márcia Jamille - Arqueologia Egípcia
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